quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Sempre quando avalio adaptações de uma mídia para outra, procuro levar em conta duas premissas: uma boa adaptação não significa necessariamente um bom produto final (um filme baseado em um romance, por exemplo) assim como um bom produto final não significa uma boa adaptação. Vou ilustrar com dois exemplos: o Conan de 1982 e o filme do Lanterna Verde. Conan - O Bárbaro é uma péssima adaptação para o cinema do personagem de Robert E. Howard e só pensa o contrário quem nunca leu sua obra, mas ainda assim é um excelente filme que, passadas mais de 3 décadas de seu lançamentos, ainda não envelheceu. Já Lanterna Verde é uma excelente adaptação, contando de maneira enxuta toda a origem clássica do personagem, apresentando coadjuvantes famosos incluindo o planeta Oa, mostrando diversos outros lanternas e aproveitando elementos das modernas tramas do personagem como o vilão Parallax, porém, é igualmente inegável se tratar de um filme péssimo, com claros problemas na produção.

Dito isto, onde se situa o piloto da nova série da Supergirl? A resposta seria num meio termo, mas isso passa longe de ser algo negativo, muito pelo contrário: ao apostar em seguir um caminho seguro, já testado nas séries do Flash e Arrow, o produtor Greg Berlanti entrega um produto sem muitas surpresas, mas divertido e leve, sem o clima sombrio e pesado visto em O HOMEM DE AÇO. Vale frisar que a série não tem qualquer relação com o filme do Superman.

Aqui, Kara é enviada a Terra aos 13 anos junto com Kal-El/Superman diante da destruição do planeta deles, Krypton. Sua missão é clara: cuidar do primo ainda bebê. Porém, seu foguete sofre uma avaria e ela é lançada através da Zona Fantasma, vindo chegar na Terra 24 anos depois, porém ainda com a idade de 13 anos quando é encontrada pelo primo, já adulto, e entregue aos cuidados de um casal de cientistas. Ela cresce até a idade de 24 anos mantendo seus poderes em segredo até que, para salvar a irmã de criação, Alex, de um desastre aéreo, ela se revela ao mundo e abre as portas para o começo de sua carreira heroica, mas sem saber ela deflagra uma corrente de acontecimentos sombrios envolvendo o passado de sua família e sua própria vinda à Terra.

Assim como seu primo Superman, a Supergirl, ou Kara Zor-El, também teve sua origem escrita e reescrita desde sua criação e o roteiro busca construir os elementos de sua trama pegando um pouco dessas versões além de utilizar ideias próprias. Por exemplo, a ideia de Kara ter sido enviada para cuidar do bebê Kal-El veio da versão da personagem lançada nos anos 2000 pela DC Comics. Ao chegar na Terra, ela adota o nome de Kara Danvers, uma homenagem à versão clássica da heroína cuja identidade secreta era a de Linda Lee Danvers. Kara ainda trabalha para a CatCo, uma empresa multimídia fundada e controlada por Cat Grant, algo visivelmente extraído da versão atual dos quadrinhos em vigor de 2011.


Existem também vários elementos que farão a alegria dos fãs, como o fato de Dean Cain, o Superman do seriado Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, e Helen Slater, a Supergirl do filme de 1984, viverem os pais adotivos de Kara num rápido flashback. Certa ponte é chamada de Otto Binder, ninguém menos que o criador do Capitão Marvel. A cidade onde a heroína vive se chama National City, uma clara homenagem à própria DC Comics, cujo nome inicial era National Comics. Outros personagens também desfilam pela tela, como Hank Henshaw, Cat Grant e o próprio Jimmy Olsen, ou melhor, James Olsen. Os produtores resolveram apresentar uma versão mais velha do personagem e, portanto, ele resolve deixar o apelido diminuitivo de lado para se firmar como um homem mais maduro e um profissional independente buscando estabelecer uma carreira fora do Planeta Diário. A escolha de dois atores afrodescendentes para viver tanto Jimmy (Mehcad Brooks) quanto Henshaw (David Harewood) gerou polêmica entre os fãs, mas a verdade é que ambos se saem positivamente bem e a etnia acaba se tornando algo irrelevante.

Os roteiristas não tiveram vergonha de pegar "emprestado" certos momentos de SUPERMAN - O FILME, como o "dia seguinte" à aparição do herói, quando Perry White chama os jornalistas para pedir por uma reportagem sobre ele ou o fato do vilão se comunicar com Kara usando uma frequência tão baixa que apenas a superaudição dela poderia captar. Como já falei, receita de bolo. Não tem surpresas, mas funciona.

Um fato a se destacar é a duração dos pilotos de seriados de tv nos EUA ultimamente. Nas décadas passadas, eles eram produzidos como telefilmes com mais ou menos 1h30min de duração. Nas reprises, eram divididos em duas partes, ou seja, o tempo normal de um série. Aparentemente, este costume está caindo em desuso pois tanto Supergirl quanto Flash, ambos do mesmo produtor, tiveram seus episódios de estreia com apenas 40min aproximadamente. Isso significa tramas bem mais prensadas e apressadas. Tudo acontece muito rápido, mas comparando as duas séries, Supergirl consegue se sair um pouco melhor apesar de ambas apresentarem os mesmos clichês envolvendo momentos de dúvida e aqueles emotivos junto aos pais e a batalha final onde o herói ou a heróina tem apoio por rádio de alguém próximo. Já falei sobre receita de bolo, não?

A grande estrela do programa é sem dúvida Melissa Benoist, responsável por dar vida a Kara Zor-El nesta versão. Além de linda e simpática, ela demonstra uma grande gama de atuações durante os parcos 40min do programa, indo de cenas de choro a alegria, passando por combates físicos e aqui ela tem uma mão de bons efeitos especiais. Quando se trata de programas de televisão envolvendo personagem superpoderosos como a Supergirl existe sempre uma preocupação com a qualidade de, por exemplo, tomadas de voo, demonstrações de força física etc. A boa notícia é que, ao menos no piloto, a série passa por este quesito de forma bem satisfatória: é possível ter uma ideia bem clara do nível de poder de Kara em diversas cenas emocionantes como quando ela salva um avião.

Enfim, Hollywood tem uma longa e deplorável lista de adaptações para as telas grandes e pequenas envolvendo personagens femininas como protagonistas: Mulher-Gato, Barbarella, Elektra, Sheena, Sonja e a própria Supergirl, todos filmes pífios e que ajudaram a consolidar a ideia de que (super) heroínas não são comerciais. Felizmente, a nova série da Supergirl vem para mudar isso. E mesmo sem ser algo assombrosamente maravilhoso, o piloto é divertido e cumpre a função de mostrar com simpatia e boa dose de ação, drama e aventura uma personagem que há muito merecia mais uma chance de voar nas telas.

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